
Foto: Ryan Murphy.
Ícaro Santos Pereira – Acadêmico do 6° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
Com ao menos seis meses do início da guerra por parte da coalizão americano-israelense contra a República Islâmica do Irã, o mundo testemunha de maneira impressionada o desandar do conflito com as sucessivas vitórias táticas iranianas e a surpreendente incapacidade da maior potência militar do globo, os Estados Unidos, de garantir seus interesses na região, abrindo uma possível fase histórica de decadência de sua hegemonia e corroborando para uma gigantesca onda de rejeição interna à administração de Donald Trump.
Dentro dos paradigmas fundadores das Ciências Militares, que posteriormente foram absorvidos pelos estudos das Relações Internacionais, estão os aportes teóricos do autor e militar alemão Carl von Clausewitz em sua obra mais destacada, Da Guerra, em que, de suas diversas contribuições, pode-se sintetizar a noção de que “A Guerra é a continuação da Política por outros meios”. Rompe-se, assim, a tese de que a Guerra é apenas o conflito bélico convencional e de que seus resultados podem ser analisados simplesmente pela leitura de qual força produziu mais devastação sobre a outra, mas sim através de qual ator foi capaz de alcançar seus objetivos políticos por meio de determinadas estratégias e táticas. (CLAUSEWITZ; 1979)
Durante o conflito, os Estados Unidos e Israel alteraram diversas vezes de tática e, pior ainda: de objetivo político. No início conflito os objetivos da coalizão eram a destruição da capacidade missilistica e nuclear do Irã e implementar uma troca de regime com o assassinato da liderança iraniana com a expectativa de uma operação semelhante ao sequestro de Maduro na Venezuela, porém contrariando as expectativas, a coesão iraniana fez com que mesmo o assassinato do Líder Supremo Ali Khamenei não produzisse o resultado aguardado por Washington e Tel-Aviv.
Seguido do assassinato e dos ataques aéreos em território iraniano, gestou-se o fechamento do Estreito de Hormuz, a ofensiva contra os ativos militares e energéticos da coalizão e de aliados árabes e a inutilização momentânea das principais bases estadunidenses na região. (ASSOCIATED PRESS; 2016), Tal reação alterou totalmente o balanço de poder em toda a Ásia Ocidental e migrou os objetivos americanos de troca de regime e contenção bélica para a retomada de um equilíbrio estratégico e de uma saída politicamente vantajosa a Trump.
A coalizão partiu de uma doutrina militar aérea com o bombardeio de alvos políticos e militares em território iraniano; mesmo após o início do bloqueio do Estreito de Hormuz e dos ataques às bases americanas, apostou-se em uma retaliação aérea. Porém, com a falha de tais ações, decidiu-se partir para uma nova doutrina naval de “bloquear o bloqueio” e sufocar a economia iraniana. Mesmo assim, os Estados Unidos viram-se contra a parede com o aumento do preço do petróleo em até US$ 120,00 o barril e a retomada dos protestos contra Trump e a guerra.
Nesta situação, os americanos assinaram, juntamente ao Irã e com mediação do Paquistão, um memorando de entendimento de quatorze pontos majoritariamente favoráveis ao Irã, como o cessar-fogo em todas as frentes, o fim do bloqueio americano, reparações de guerra na casa de US$ 300 bilhões e a promessa de negociações finais em até 60 dias. (BBC; 2026). Tais pontos foram vistos internamente como o que são: um reconhecimento de derrota total dos Estados Unidos e uma nova arquitetura de poder na Ásia Ocidental. O Estado de Israel, como resposta, recusou o cessar-fogo na frente libanesa, manteve sua ofensiva terrestre e os bombardeios sobre a capital Beirute e deu espaço para que os Estados Unidos não cumprissem nenhuma das cláusulas e logo retomassem a ofensiva contra o Irã.
O atual presidente dos Estados Unidos, em sua primeira eleição em 2016, realizou sua campanha sob a palavra de ordem “Tornar a América grande de novo”, sendo crítico às alas neoconservadoras tradicionais do Partido Republicano. Mesmo que ainda apoiado por essas, possuía sua massa de apoio eleitoral que via em Trump um programa crítico ao establishment político com a promessa de um largo processo de geração de empregos através da reindustrialização, o combate à imigração ilegal e o mais importante para a análise — a crítica às chamadas “Guerras Intermináveis”, como as do Iraque e Afeganistão, lidas como uma política bipartidária que somente atende às demandas do complexo industrial-militar. (THE GUARDIAN; 2016).
Com tais expectativas prorrogadas para seu segundo mandato, Trump realizou uma virada estratégica vital, como o não cumprimento de sua promessa de promover a paz na Ucrânia em suas primeiras 24 horas eleito, as ameaças de anexação territorial contra os aliados Canadá e Groenlândia, a incapacidade de conter o avanço da hegemonia chinesa no Sistema Internacional, o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, o tarifaço que virtualmente atacava todos os países do globo (embora na prática tenha prejudicado a própria economia americana), a ingerência nos processos eleitorais, em especial na América Latina, e, por fim, o próprio apoio incondicional a Israel em todas as suas ações, desde o genocídio em Gaza até a guerra com o Irã.
Tal agenda internacional tão escancaradamente contraditória, somada aos aumentos de preços do petróleo e produtos causados pelo tarifaço e pela guerra, às ações lidas como cada vez mais truculentas pelo serviço de imigração (ICE) contra imigrantes e cidadãos, e às relações com o caso do bilionário Jeffrey Epstein tido como amigo pessoal de Trump e um possível ativo do serviço de inteligência israelense Mossad, em que o caso é tido como uma questão pessoal do presidente ao iniciar o conflito no Irã como uma cortina de fumaça sobre a opinião pública , fez com que sua aprovação chegasse a míseros 33% de acordo com a Reuters (2026), antecedidos pelas maiores manifestações de rua dos EUA do último período no chamado No King’s Day.
Em uma conjuntura em que, desde o início do conflito em Gaza diretamente apoiado pelos Estados Unidos, o apoio a Israel caiu para apenas 36%, sendo menor ainda entre a população mais jovem (AL JAZEERA, 2026), não bastasse apoiar uma guerra impopular de um aliado impopular, a administração Trump optou por atirar-se em uma segunda contra o Irã, onde suas visíveis derrotas militares e violações da lei internacional gestaram uma visão em 71% da população de que a administração não tem ideia de como encerrar o conflito (FOX NEWS, 2026).
De acordo com o próprio governo, já foram gastos ao menos US$ 38 bilhões, sem contar as contas de reparos das bases e ativos militares, com faturas que podem chegar a valores de até US$ 113 bilhões, e ao menos 7.900 mortos em todas as frentes, além de um aumento de 22% no preço médio do petróleo (AL JAZEERA). Tudo isso em uma sociedade onde não existe um sistema de saúde pública mínimo. Em síntese, comprova-se que a guerra, além de impopular, é, como elucidou o professor e internacionalista John Mearsheimer, irracional (SUBSTACK, 2026).
A guerra tornou-se um fardo porque o objetivo político da coalizão na troca de regime com base no precedente venezuelano era inalcançável nas condições iranianas. Com essa premissa de vitória fácil, seguiu-se a resposta do Irã: o rápido bloqueio de Hormuz e a destruição dos ativos militares. Porém, a contra-resposta não foi nada além de um zigue-zague tático onde bombardearam-se pontos em terra, defendia-se de drones, restaurava-se as bases terrestres, apaziguava-se os aliados árabes, continham a ofensiva israelense no Líbano, “bloqueava-se” o bloqueio de Hormuz, esgotava-se toda a munição missilística e antiaérea, moviam-se ativos de outros cantos do mundo e negociava-se e recuava com o Irã com o único intuito de demonstrar à base trumpista a disposição de encerrar a guerra com uma vitória política inalcançável e, por fim, falhar em todas as táticas e retornar ao ciclo vicioso.
Essa Guerra é e será uma sangria para a administração atual dos Estados Unidos porque, enquanto um ator internacional se enxergou e portou como uma resistência regional a uma hegemonia e soube atingir o centro de gravidade do inimigo isto é: a economia e a moral interna, os Estados Unidos se deixaram tragar em uma aventura que até o momento reestruturou totalmente a hegemonia regional e na prática demonstrou suas vulnerabilidades aos outros atores que buscam sua posição no Sistema Internacional. Tal sangria só poderia ser estancada através de um processo amplo de retificação da liderança americana, o qual não pode ocorrer sem um processo de paz, mesmo que temporário.
Referências
AL JAZEERA: Us-Israel war on Iran, six months down the line: in numbers; 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/amp/news/2026/8/28/us-israel-war-on-iran-six-months-down-the-line-in-numbers
ASSOCIATED PRESS: US watchdog tallies Iran war’s hit to weapons stockpiles, military bases and
more: 2026: Disponível em:https://apnews.com/article/iran-war-damage-pentagon-inspector-general-87cbe4e2ac208a849cd1554c4bb44bbf?utm_source=gemini&hl=pt-BR
BBC: US-Iran memorandum of understanding in full: 2026: Disponível em:https://bbc.com/news/articles/c4gy700j0eko
CLAUSEWITZ, Carl Von. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes: 1979
Fox News: Fox News Poll: 71% think Trump administration lacks plan to end Iran war; 2026: Disponível em:https://www.foxnews.com/politics/fox-news-poll-71-think-trump-administration-lacks-plan-end-iran-war
REUTERS: Trump approval falls to 33%, lowest of his presidency; 2026: Disponível em: https://www.reuters.com/world/us/trump-approval-falls-33-lowest-his-presidency-reutersipsos-poll-finds-2026-08-17/
SUBSTACK: Attacking Iran Was Irrational; 2026: Disponível em: https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&opi=89978449&url=CAESeAHrOzAVJNLbvnhKrNzkgsAkmETobas0KTa3KhVEtSH_q8TNiZK5Nf1hSU4eKfqKULFKGS-qo8B6C8LAcTzcJuQQfUNC8TAkMwUBuB88ck1qz99xECy2GiDsOqkA9x3TSSb1bzkfXx2UqdxDStT9li8JZQvadWNYA&ved=2ahUKEwigqvuV7_eWAxVRlJUCHTwoNMAQFnoECCMQAQ&uoh=1&usg=AOvVaw3fFI7jx58AFnuq4r6Vh1Av
THE GUARDIAN: Donald Trump: ‘We will stop racing to topple foreign regimes’: 2016: Disponível em:https://www.theguardian.com/us-news/2016/dec/07/donald-trump-we-will-stop-racing-to-topple-foreign-regimes?CMP=share_btn_url
