Izabelle Gama – Acadêmica do 4° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

No campo das Relações Internacionais, o estudo da política mundial foi tradicionalmente marcado pela centralidade dos Estados, especialmente nas abordagens realistas. Entretanto, as transformações da sociedade internacional ampliaram o interesse por outros atores e pelas relações que ultrapassam as fronteiras nacionais. Nesse contexto, James N. Rosenau contribui para uma compreensão mais abrangente da política mundial ao reconhecer que indivíduos, organizações e movimentos sociais também participam dos processos internacionais.

A contribuição de Rosenau está relacionada à ampliação do próprio objeto de análise das Relações Internacionais. Sem desconsiderar a importância dos Estados, o autor chama atenção para as pessoas que compõem essas sociedades e para sua capacidade de influenciar acontecimentos que ultrapassam os limites nacionais.

Essa perspectiva aproxima-se dos estudos de governança global, nos quais a coordenação de interesses e a produção de ordem internacional envolvem diferentes atores, instituições e formas de autoridade, sem depender necessariamente de um governo mundial centralizado.

James Nathan Rosenau foi um cientista político norte-americano conhecido por seus estudos sobre as transformações da política mundial, a governança e as relações entre as dimensões doméstica e internacional. Professor de Assuntos Internacionais na George Washington University, desenvolveu uma abordagem voltada às mudanças nas estruturas de autoridade e às relações entre diferentes níveis da política. Essas reflexões ajudam a compreender sua análise sobre os indivíduos em rede apresentada em “People Count!”.

Publicado em 2008, People Count!: Networked Individuals in Global Politics foi produzido em um período de expansão da internet, intensificação da globalização e ampliação das conexões entre indivíduos e sociedades. Nesse contexto, Rosenau procura compreender como mudanças tecnológicas, sociais e políticas transformam a participação das pessoas nos assuntos globais. 

O argumento central da obra é que indivíduos conectados em redes adquiriram novas possibilidades de participação na política mundial, influenciando acontecimentos e processos que anteriormente eram analisados sobretudo a partir das instituições estatais (ROSENAU, 2008).

Para desenvolver essa perspectiva, Rosenau discute as transformações que afetam os papéis sociais e políticos dos indivíduos. Um conceito importante de seu pensamento é fragmegration, que combina as ideias de fragmentação e integração, indicando que esses processos podem ocorrer simultaneamente. Enquanto as conexões globais aproximam pessoas e sociedades, também podem produzir divisões, tensões e novas formas de diferenciação(ROSENAU, 2008).

Dessa maneira, a globalização não representa apenas uma integração crescente, mas um processo complexo, no qual diferentes forças modificam as relações sociais e as estruturas de autoridade.

A organização de People Count! acompanha essa preocupação com os diferentes espaços de atuação dos indivíduos. O livro aborda pessoas em movimento, suas atividades profissionais, sua participação na sociedade e na cultura e sua atuação em agrupamentos sociais. Ao discutir diferentes categorias de indivíduos, como imigrantes, ativistas, trabalhadores, jornalistas e estudantes, Rosenau evidencia que a participação política não se limita àqueles que ocupam cargos públicos ou representam formalmente instituições (ROSENAU, 2008).

As experiências cotidianas e as relações sociais também podem adquirir relevância internacional quando conectadas a redes capazes de compartilhar informações, organizar iniciativas e mobilizar pessoas em torno de questões comuns. A partir dessa análise, os indivíduos em rede podem ser compreendidos como participantes das dinâmicas que influenciam a política global, e não apenas como receptores das decisões tomadas pelos governos. 

Suas conexões permitem construir identidades coletivas, compartilhar conhecimentos e articular demandas que ultrapassam fronteiras nacionais. A ampliação da governança global, nessa perspectiva, não significa a substituição dos Estados por indivíduos ou organizações, mas o reconhecimento de que os processos internacionais resultam da interação entre diferentes atores e níveis de autoridade (ROSENAU, 2008).

A Cúpula dos Povos Rumo à COP30, realizada em Belém entre 12 e 16 de novembro de 2025, é um exemplo dessa dinâmica. O encontro reuniu movimentos locais, nacionais e internacionais, povos indígenas e comunidades tradicionais, organizações sociais, trabalhadores e jovens, em um processo de articulação voltado ao debate sobre a crise climática.

Segundo a declaração final, a mobilização envolveu mais de 70 mil pessoas e foi resultado de meses de preparação, debates e intercâmbios de experiências (CÚPULA DOS POVOS, 2025). O encontro ocorreu paralelamente à conferência oficial da ONU, criando um espaço de participação da sociedade civil na discussão de questões relacionadas à governança climática global.

A relação entre a Cúpula dos Povos e o pensamento de Rosenau pode ser observada na articulação entre indivíduos e organizações que, mesmo sem autoridade governamental formal, participam da construção de demandas internacionais. A declaração final apresentou reivindicações relacionadas à justiça climática, à agroecologia e à soberania alimentar, expressando posições construídas coletivamente pelos movimentos participantes (CÚPULA DOS POVOS, 2025). 

Além disso, a entrega de uma carta ao presidente da COP30 demonstra a tentativa de levar essas reivindicações a um espaço institucional de negociação. O caso evidencia, portanto, como redes e movimentos sociais podem ampliar a participação política e contribuir para a formação de agendas globais, ainda que não detenham o poder formal de decisão dos Estados.

Entretanto, a ampliação da participação não significa uma distribuição igualitária do poder. Embora movimentos sociais possam mobilizar pessoas e apresentar reivindicações, sua capacidade de influenciar decisões depende de condições políticas, institucionais e materiais.

A existência de espaços de diálogo não garante que todas as demandas sejam incorporadas às decisões oficiais. Nesse sentido, a Cúpula dos Povos permite observar tanto as possibilidades de atuação dos indivíduos em rede quanto os limites de sua influência diante das instituições e dos atores que concentram autoridade e recursos na política internacional.

Essa reflexão é relevante para as Relações Internacionais porque demonstra que a governança global envolve uma relação entre participação social e estruturas formais de poder. Os Estados permanecem centrais nas negociações internacionais e na implementação de compromissos, mas não são os únicos responsáveis pela formação de agendas e pela mobilização em torno de questões globais. 

Conclui-se que People Count! contribui para os estudos de governança global ao destacar a participação de indivíduos conectados em redes na construção da política mundial. A obra permite compreender que a atuação internacional não se restringe aos Estados e às organizações formais, mas também envolve pessoas e grupos capazes de articular demandas e participar da formação de agendas globais.

Referências:

CÚPULA DOS POVOS RUMO À COP30. Declaração da Cúpula dos Povos rumo à COP30. Belém, PA, 2025. Disponível em: https://cupuladospovoscop30.org/declaracao-final/. Acesso em: 25 set. 2026.

ROSENAU, James N. People Count!: Networked Individuals in Global Politics. Boulder, CO: ParadigmPublishers, 2008.