Valentina Medeiros Rosas Samuelsson (acadêmica do 2° semestre de R.I na UNAMA)

Ana Victória Padilha Carneiro (acadêmica do 6° semestre de R.I na UNAMA)

PARTE II

Diante disso, a dimensão cultural do patrimônio também pode ser compreendida a partir do conceito de “diplomacia cultural”. No campo das Relações Internacionais, a diplomacia cultural se refere à utilização da cultura (incluindo artes, patrimônio, língua, educação e intercâmbios) para favorecer o diálogo, a compreensão mútua e a construção de relações duradouras entre sociedades. Nesse sentido, ela pode contribuir para a projeção internacional de identidades e valores nacionais e para a consecução de objetivos políticos, econômicos e culturais da política externa.

No caso brasileiro, essa perspectiva encontra respaldo nos estudos de Edgard Telles Ribeiro, para quem a relação cultural pode ser utilizada na consecução de objetivos nacionais que ultrapassam a esfera estritamente cultural, alcançando também dimensões políticas, comerciais e econômicas (RIBEIRO, 2011).

A inscrição dos Teatros da Amazônia na Lista do Patrimônio Mundial também apresenta uma dimensão diretamente relacionada às Relações Internacionais. O patrimônio cultural constitui um dos mecanismos pelos quais Estados e sociedades projetam identidades e narrativas para além de suas fronteiras. Nesse sentido, a UNESCO funciona como espaço de reconhecimento internacional de determinados bens culturais considerados relevantes para a humanidade.

A candidatura dos teatros foi construída por meio da articulação entre diferentes níveis do Estado brasileiro. O processo envolveu o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Ministério da Cultura, o Ministério das Relações Exteriores, os governos dos estados do Pará e do Amazonas e as prefeituras de Belém e Manaus. O dossiê oficial foi entregue à UNESCO em 31 de janeiro de 2025 (IPHAN, 2025).

Essa articulação demonstra que a diplomacia cultural não ocorre exclusivamente por meio de negociações políticas tradicionais. A cultura também constitui instrumento de inserção internacional, permitindo que um país apresente ao exterior elementos de sua história, identidade e diversidade.

No caso amazônico, essa dimensão adquire importância particular. A Amazônia frequentemente aparece no debate internacional associada sobretudo à biodiversidade, às mudanças climáticas, aos recursos naturais e às questões ambientais. Embora essas dimensões sejam fundamentais, a região também possui uma história urbana, artística, arquitetônica e intelectual própria.

O reconhecimento dos Teatros da Amazônia contribui, portanto, para ampliar as formas pelas quais a região pode ser representada internacionalmente. A Amazônia deixa de aparecer exclusivamente como espaço natural e passa também a ser apresentada como espaço histórico e cultural, marcado por processos de urbanização, circulação de pessoas e ideias, produção artística e intercâmbios internacionais.

Isso não significa substituir a dimensão ambiental por uma dimensão cultural, mas ampliar a compreensão internacional da própria Amazônia. A região é simultaneamente território ambiental, espaço econômico, território político e espaço de produção cultural.

A inscrição também possui consequências simbólicas para as duas cidades. Belém e Manaus foram historicamente fundamentais para a organização dos fluxos econômicos da Amazônia durante o ciclo da borracha, e seus teatros permanecem como importantes testemunhos materiais desse período.

No caso de Belém, o Theatro da Paz integra um conjunto urbano relacionado à Praça da República e à história de modernização da cidade. Inaugurado em 1878, o edifício foi concebido dentro de referências arquitetônicas neoclássicas e tornou-se um dos principais espaços culturais da região. Em Manaus, o Teatro Amazonas, inaugurado em 1896, tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da modernização urbana promovida durante o auge da economia da borracha (IPHAN, 2025).

O reconhecimento conjunto também estabelece uma relação profunda entre as duas capitais. Em vez de apresentar Belém e Manaus como experiências culturais independentes, a inscrição evidencia uma história compartilhada de circulação econômica, cultural e artística.Essa dimensão é particularmente significativa porque os rios tiveram papel central na conexão entre os dois espaços. A UNESCO destaca que as conexões artísticas entre os dois teatros permanecem ativas e continuam sendo facilitadas pela rede hidrográfica amazônica (UNESCO, 2026).

Assim, os rios deixam de ser compreendidos apenas como elementos geográficos e passam a ser considerados parte da infraestrutura histórica que possibilitou a circulação de mercadorias, pessoas, ideias e manifestações culturais. A geografia amazônica, nesse sentido, não funcionou apenas como obstáculo à integração, mas também como meio de conexão.

Embora a inscrição na Lista do Patrimônio Mundial represente um reconhecimento internacional de grande relevância, ela também implica responsabilidades. A obtenção do título não encerra o processo de preservação; ao contrário, cria a necessidade de manter as condições que justificaram o reconhecimento.

A UNESCO considera aspectos como autenticidade, integridade, conservação e gestão do patrimônio. No caso dos Teatros da Amazônia, a decisão de inscrição reconheceu que os componentes preservam sua localização, características espaciais essenciais, materiais significativos e funções culturais, condições que contribuem para a expressão de seu Valor Universal Excepcional (UNESCO, 2026).

Dessa forma, um dos principais desafios posteriores ao reconhecimento consiste em conciliar preservação e uso. Os teatros precisam continuar funcionando como espaços culturais sem que sua utilização comprometa os elementos históricos que justificaram sua inscrição.

Outro desafio está relacionado ao turismo. O reconhecimento internacional tende a aumentar a visibilidade dos bens e pode contribuir para a atração de visitantes, investimentos e atividades culturais. Entretanto, o turismo patrimonial exige planejamento para que a valorização econômica não produza processos de descaracterização, sobrecarga dos espaços ou transformação da cultura local em mero produto de consumo.

Também se torna necessário fortalecer a educação patrimonial. O reconhecimento de um bem como patrimônio mundial somente alcança sua dimensão social quando a população compreende os motivos pelos quais determinado espaço possui importância histórica e cultural. Nesse sentido, escolas, universidades, instituições culturais e órgãos públicos possuem papel relevante na construção de uma relação mais ampla entre sociedade e patrimônio.

A preservação também precisa considerar a própria dinâmica urbana de Belém e Manaus. Os teatros não existem isoladamente, eles estão inseridos em áreas urbanas vivas, atravessadas por transformações sociais, econômicas e espaciais. A proteção do patrimônio, portanto, precisa dialogar com políticas de planejamento urbano, mobilidade, turismo, cultura e desenvolvimento.

A própria UNESCO recomendou ao Brasil a aprovação e operacionalização do Comitê de Gestão, a aprovação do plano de gestão com definição de recursos orçamentários, a participação das comunidades locais e a realização de avaliações de impacto patrimonial antes de projetos de desenvolvimento no bem, em suas zonas de amortecimento ou no entorno imediato (UNESCO, 2026). Essas recomendações mostram que o reconhecimento deve ser acompanhado de uma política permanente de gestão e preservação.

Por fim, a inscrição dos Teatros da Amazônia pode ser compreendida como uma oportunidade de ressignificação da identidade cultural da região. O patrimônio material permite recuperar uma dimensão frequentemente esquecida da Amazônia, sua longa história de intercâmbio cultural e sua participação em processos internacionais.

Os teatros representam uma Amazônia urbana e cosmopolita, sem que isso elimine sua relação com a floresta e com as particularidades regionais. Sua própria arquitetura demonstra esse encontro entre referências estrangeiras e elementos amazônicos. O resultado não é simplesmente uma reprodução europeia transportada para os trópicos, mas uma expressão histórica de como diferentes influências foram apropriadas e transformadas no contexto local (IPHAN, 2025).

Por isso, o reconhecimento dos Teatros da Amazônia como Patrimônio Mundial pode contribuir para superar interpretações simplificadoras da região. A Amazônia não é somente natureza preservada, nem apenas território de exploração econômica. É também território de memória, produção artística, urbanização, circulação cultural e construção de identidades.

Nesse sentido, os teatros podem ser entendidos como lugares de memória nos quais diferentes temporalidades se encontram. Eles preservam marcas do século XIX, permanecem ativos no século XXI e, a partir de 2026, integram formalmente uma rede internacional de bens considerados de Valor Universal Excepcional.

A inscrição, portanto, ultrapassa a necessidade de atribuir um título a dois edifícios históricos. Ela estabelece uma nova responsabilidade de preservação e, simultaneamente, oferece ao Brasil e à própria região amazônica uma oportunidade de apresentar sua história a partir de uma narrativa mais complexa: uma Amazônia conectada ao mundo, atravessada por contradições econômicas e sociais, produtora de cultura e capaz de transformar influências externas em manifestações próprias.

É justamente nessa combinação entre o local e o global que reside parte essencial do significado dos Teatros da Amazônia. Eles nasceram de uma economia integrada ao mercado internacional, foram construídos sob referências arquitetônicas transnacionais, tornaram-se símbolos das cidades de Belém e Manaus e, mais de um século depois, passaram a ser reconhecidos internacionalmente como patrimônio de valor universal. Dessa maneira, sua trajetória demonstra que a história da Amazônia também é, em grande medida, uma história de conexões entre floresta e cidade, entre tradição e modernidade, entre cultura local e circulação internacional e entre memória regional e patrimônio da humanidade.

Diante disso, a consolidação de políticas públicas e diretrizes multilaterais voltadas à preservação do patrimônio amazônico impõe responsabilidades rigorosas aos governantes e à sociedade civil. A continuidade do uso desses espaços e a democratização do acesso à sua memória são requisitos importantes para evitar que o reconhecimento da UNESCO se converta apenas em um mero “artefato” para o mercado turístico.

Em suma, a trajetória do patrimônio cultural na Amazônia demonstra que a região sempre esteve integrada aos debates globais de sua época. Para além da dimensão ambiental, frequentemente priorizada e até mesmo estereotipada nas agendas e discussões internacionais, a Amazônia como um território de densa e extensa produção intelectual, artística e política, reafirma seu papel estratégico no cenário internacional.

Ademais, recomenda-se o “FAQ: Candidatura dos Teatros da Amazônia a Patrimônio Mundial da UNESCO”, que fora publicado oficialmente no site do governo Federal do Brasil. O documento aborda de forma objetiva os principais aspectos técnicos, históricos e de gestão cultural envolvidos no reconhecimento do Teatro Amazonas (Manaus) e do Theatro da Paz (Belém) como Patrimônio Mundial. A publicação relata a relevância do patrimônio arquitetônico e artístico do período da economia da borracha, os critérios de conservação exigidos pela UNESCO e a importância socioeconômica da preservação cultural para a região amazônica.

Disponível em: < https://www.gov.br/iphan/pt-br/assuntos/teatros-da-amazonia/faq-candidatura-dos-teatros-da-amazonia-a-patrimonio-mundial-da-unesco?activeAccordion=e1f27b0b-db33-4f1f-81a6-94f0e6b9046f%2C53cac817-6a9f-4fa7-bd8b-aa294c4ab564%2C77a5dc98-69af-43ce-bf32-8a31e2686139%2Cf3d48eb6-234d-46eb-8f37-bedbba288318%2C5da77738-f224-4cba-a14a-34a43ef6db6c%2Ccb7e60d3-f261-4ee3-8f76-40af82d7cdfe%2C4f7735e4-09bd-489c-adde-dff218d75f4f%2Ce01cf9a7-e153-47c8-9918-5f93ab0a2c14 >.

Dessa forma, indica-se a leitura do livro: “A Belle Époque Amazônica” de Ana Maria Daou. A autora, que é uma referência na área, analisa o processo de modernização e urbanização de Belém e Manaus na virada do século XIX para o XX, impulsionado pelo auge da economia borracheira. O estudo destaca a constituição das elites locais, a transformação arquitetônica e espacial inspirada nos padrões europeus e a dinâmica social e cultural que marcou a construção da identidade urbana dessas metrópoles amazônicas.

Disponível para compra em: < https://www.estantevirtual.com.br/livro/a-belle-epoque-amazonica-073-1919-000-BK >

Por fim, recomenda-se a leitura do livro “Diplomacia Cultural: Seu Papel na Política Externa Brasileira”, de autoria de Edgard Telles Ribeiro e publicado pela Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG). A obra discorre sobre a difusão cultural como um instrumento estratégico e integrativo das Relações Internacionais do Brasil. O autor demonstra como a promoção das artes, da língua e dos valores socioculturais atua como um facilitador para o fortalecimento do comércio exterior, das negociações bilaterais e dos projetos de cooperação técnica e diplomática.

Disponível em: < https://funag.gov.br/biblioteca-nova/produto/loc_pdf/528/1/diplomacia_cultural:_seu_papel_na_politica_externa_brasileira >

REFERÊNCIAS

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Os Teatros da Amazônia. Brasília, DF: IPHAN, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/iphan/pt-br/assuntos/teatros-da-amazonia/os-teatros. Acesso em: 19 set. 2026.

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Teatros da Amazônia são reconhecidos pela Unesco como Patrimônio Mundial. Brasília, DF: IPHAN, 27 jul. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/iphan/pt-br/sala-de-imprensa/notas-e-avisos-de-pauta/teatros-da-amazonia-sao-reconhecidos-pela-unesco-como-patrimonio-mundial. Acesso em: 19 set. 2026.

LIU, Xin. China’s cultural diplomacy: a great leap outward. London: Routledge, 2021. Disponível em: https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-3-030-55540-5_2⁠. Acesso em: 22 set. 2026.RIBEIRO, Edgard Telles. Diplomacia cultural: seu papel na política externa brasileira. 2. ed. Brasília, DF: Fundação Alexandre de Gusmão, 2011. Disponível em: Biblioteca Digital da FUNAG⁠. Acesso em: 22 set. 2026.

MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES (MRE). Inscrição dos Teatros da Amazônia na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO: nota conjunta MRE/MinC/Iphan. Brasília, DF: MRE, 27 jul. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/inscricao-dos-teatros-da-amazonia-na-lista-do-patrimonio-mundial-da-unesco-nota-conjunta-mre-minc-iphan. Acesso em: 19 set. 2026.

UNESCO. World Heritage Committee. Decision 48 COM 8B.34: Amazonia Theaters (Brazil). Paris: UNESCO World Heritage Centre, 2026. Disponível em: https://whc.unesco.org/en/decisions/9188. Acesso em: 19 set. 2026.