Foto: EBC/Agência Brasil

Eric Felipe Macedo Rodrigues – Internacionalista formado pela UNAMA

Neste artigo, será apresentada uma breve análise acerca dos desafios da política que se desdobram entre acolhimento, cuidado e resistências, tomando como ponto de partida os recentes debates acerca da ingerência política no processo eleitoral brasileiro. Busca-se compreender de que maneira questões relacionadas à soberania, à participação política e à formação autônoma das convicções podem ser problematizadas diante das relações de poder que atravessam a vida política contemporânea.

Concomitantemente, estabelece-se uma relação teórico-conceitual entre esses desdobramentos internacionais e a vertente pós-estruturalista das Relações Internacionais, com ênfase nas contribuições de Michel Foucault acerca da biopolítica, do biopoder e das práticas de resistência. A partir deste arcabouço, pretende-se refletir sobre como o poder incide sobre a vida política e sobre as possibilidades de resistência que emergem nos espaços de participação e coletividade.

Compreende-se a utilização de correntes teóricas nas Relações Internacionais como lentes pelas quais se pode vislumbrar o mundo, observar seus acontecimentos e analisar seus desdobramentos. Desta forma, se optou, neste artigo, pela análise temática através da vertente teórica pós-estruturalista das R.I, tendo como contribuições conceituais as perspectivas de Michel Foucault acerca do biopoder, da biopolítica e das práticas de resistência. 

Tendo, portanto, Foucault como um dos nomes de grande influência, a crítica pós-estruturalista busca exatamente “problematizar os significados […] que os processos de produção de sentidos” representam e disseminam (RESENDE, 2011, p. 38). Assim, Foucault elucida acerca da política sobre a vida — a biopolítica —, que é exercida pelo biopoder; o biopoder, por conseguinte opera pelo “direito de fazer viver e de deixar morrer”, regulando a vida em caráter populacional  (Foucault, 2010, p. 202). 

Nesse sentido, o biopoder pode ser exercido indiretamente por meio da exposição à morte, da multiplicação do risco, da rejeição ou da “morte política” (Foucault, 2010, p. 216). Ademais, onde existem relações de poder, também existem resistências. Estas não se encontram fora do poder, mas são “absolutamente contemporâneas” e “coextensivas” a ele, devendo ser tão inventivas, móveis e produtivas quanto as próprias relações de poder (Foucault, 2019, p. 360). 

A resistência, assim, se apresenta como possibilidade de criação de novas formas de vida e de relação com o poder. Acerca dos desafios da política, desdobrando-se em cuidado, acolhimento e resistências, é imperioso salientar que o olhar crítico do internacionalista é fundamental para a compreensão dessa discussão, sobretudo em ano de eleições presidenciais. Nos últimos dias, se observou as reverberações da política brasileira no cenário internacional, especialmente na 81ª Assembleia Geral da ONU, com grande evidência para os debates acerca de diplomacia, soberania e ingerência política.

A Academia Brasileira de Ciências e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência manifestaram preocupação acerca da possibilidade de interferência externa no processo eleitoral brasileiro, com ênfase aos Estados Unidos, reiterando seu receio quanto à soberania nacional e ao funcionamento das instituições democráticas (Brandão, 2026).

A manifestação destaca, ainda, a importância da defesa da democracia para a comunidade científica, uma vez que a ciência depende “do acesso ao conhecimento, da liberdade de pensamento, da integridade da informação e da possibilidade de que cidadãs e cidadãos formem suas convicções sem manipulações ou condicionamentos indevidos” (BRANDÃO, 2026, s.p.). 

Em adição, senadores dos Estados Unidos enviaram carta ao Departamento de Estado norte-americano, para denunciar aquilo que classificaram como ingerência do governo estadunidense nas eleições brasileiras, afirmando que pressões diplomáticas, econômicas e políticas poderiam enfraquecer as instituições democráticas e a confiança no processo eleitoral (Chade, 2026).

Tendo em vista todo esse contexto, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, mencionou a anacronicidade da “divisão do mundo em zonas de influência” e as “investidas neocoloniais por recursos estratégicos”, enfatizando o “recrudescimento de tentações hegemônicas” ao afirmar que “a democracia está novamente em xeque” com a volta da “ingerência externa em processos eleitorais” (BRASIL, 2026, p. 3-4). 

Nesse sentido, a preocupação com a liberdade de pensamento e com a possibilidade de formação autônoma das convicções torna-se também uma preocupação com a própria condição do cidadão enquanto sujeito político. É precisamente diante desse cenário que se coloca o desafio do cuidado e do acolhimento como dimensões políticas. 

Ao passo que o biopoder atua sobre a vida por meio de mecanismos que regulam e administram populações, pensar o cuidado significa questionar quais condições são produzidas para que a vida possa permanecer politicamente reconhecida e participante. A preservação formal das instituições democráticas é de inegável importância, de forma tal que cuidar da democracia envolve também criar condições para que os indivíduos possam exercer sua participação política sem serem submetidos a condicionamentos externos. 

O acolhimento, por sua vez, pode ser compreendido como a capacidade da esfera política de reconhecer o cidadão não tão somente como objeto de políticas — ou sujeito à biopolítica —, mas como sujeito da própria construção coletiva, preservando espaços de escuta, participação e pluralidade.

É nesses espaços de coletividade que as resistências foucaultianas encontram expressão uma vez que as resistências se distribuem por diferentes espaços da sociedade. A manifestação de instituições científicas, a mobilização da sociedade civil, a atuação dos meios de comunicação e a defesa pública da integridade do processo eleitoral constituem formas de resistência perante práticas concebidas como ameaças à autonomia política. A resistência, portanto, envolve não tão somente a oposição ao poder, mas a produção de outros modos de relação com ele, deslocando-o e reinventando-o.

Dessa forma, cuidado, acolhimento e resistências podem ser compreendidos como dimensões articuladas do desafio político. Cuidar implica preservar as condições de existência e participação; acolher traduz-se em reconhecer as pluralidades que constituem a comunidade política; resistir, por sua vez, implica impedir que essas condições sejam reduzidas ou capturadas por relações de poder que pretendam determinar unilateralmente os limites da vida, como no caso da ingerência política. 

O desafio não se encontra, portanto, em eliminar o poder, concepção incompatível com a própria compreensão foucaultiana, mas na permanente disputa sobre os modos pelos quais ele atravessa, organiza e transforma a vida em sociedade.

Referências:

BRANDÃO, Marcelo. Comunidade científica alerta para risco de interferência nas eleições. Agência Brasil, 2026. Disponível em:<https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-09/comunidade-cientifica-alerta-para-risco-de-interferencia-nas-eleicoes> Acesso em: 28 set. 2026.

BRASIL. Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no debate geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas. [S. l.]: Organização das Nações Unidas, 2026. Disponível em: <https://gadebate.un.org/sites/default/files/gastatements/81/br_pt.pdf>. Acesso em: 28 set. 2026.

CHADE, Jamil. Senadores democratas denunciam ingerência de Trump na eleição brasileira. ICL Notícias, 2026. Disponível em: <https://iclnoticias.com.br/senadores-democratas-denunciam-ingerencia/>. Acesso em: 29 set. 2026.

FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade.  Curso no Collège de France, 1975-1976. WMF Martins Fontes: São Paulo, 2010.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Paz & Terra. Rio de Janeiro. 2019.

RESENDE, Erica Simone Almeida. A crítica pós-moderna/pós-estruturalista nas relações internacionais. Editora UFRR. Boa Vista, 2011.