
Glauber Silva e Izabelle Gama – 2º e 4° semestre
A eleição de Javier Milei à presidência da Argentina, em 2023, ficou marcada por uma série de mudanças radicais, como o alinhamento estratégico aos Estados Unidos, tendo como consequência a ruptura da diversificação de parcerias, a exemplo da renúncia para ingressar ao BRICS, o esfriamento das relações com Brasil e China, além de medidas econômicas, como forte ajuste fiscal, redução de subsídios, redução do quadro e dos custos administrativos do Estado redução do financiamento monetário do déficit e privatizações e reformas voltadas à ampliação da participação privada na economia. Ações que provocam vulnerabilidade diplomática, aumento desse endividamento externo e de dependência de liquidez em dólar, agravando ainda mais o problema econômico argentino. (La Nacion, 2023).
No contexto da ascensão da extrema direita em alguns países da América Latina e do fortalecimento das relações políticas com os Estados Unidos, observa-se uma reorientação das políticas externas de determinados países da região, o que pode comprometer sua autonomia. No caso argentino, a aproximação com Washington revela uma estratégia voltada à contenção da crescente influência chinesa na Argentina(GONZÁLEZ LEVAGGI; ROBELO, 2025).
Essa afirmação fica evidente na declaração do secretário do Tesouro dos Estados Unidos,Scott Bessent, ao afirmar em entrevista ao The Wall Street Journal, que o presidente argentino estaria “comprometido em expulsar a China da Argentina” (WSJ, 2025). Nesse contexto, observa-se que a priorização de critérios ideológicos na definição das parcerias internacionais causa questionamentos sobre a capacidade do governo argentino em ser parcial nas suas preferências políticas em relação aos interesses econômicos nacionais.
Ao restringir relações com uma potência econômica de relevância para o comércio argentino, o país pode não apenas reduzir suas alternativas de se relacionar internacionalmente, mas também ampliar sua dependência em relação aos Estados Unidos. Dessa forma, o alinhamento ideológico pode produzir efeitos negativos caso priorize interesses políticos em relação à busca por relações econômicas diversificadas. Buscando maior aproximação com Washington, a Argentina corre o risco de limitar sua autonomia diplomática e econômica, especialmente ao reduzir sua margem de negociação com outros parceiros estratégicos (CSIS, 2024).
A mudança na política externa argentina relaciona-se à crescente dependência de financiamento externo (INTERNATIONAL MONETARY FUND, 2025). Ao se aproximar dos Estados Unidos e de organismos financeiros internacionais, o governo passou a recorrer a esses recursos para enfrentar desequilíbrios cambiais e financeiros. O risco está em utilizá-los continuamente para sustentar a estabilidade econômica sem ampliar proporcionalmente a capacidade produtiva interna. Embora as reservas tenham melhorado após 2024, a posição externa do país ainda apresentava vulnerabilidades e reservas líquidas reduzidas (FMI, 2025).
Essa vulnerabilidade pode ser observada nos indicadores externos da economia argentina. De acordo com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL, 2024), em 2023 o país apresentou déficit correspondente a 3,2% do PIB, enquanto suas reservas internacionais líquidas de obrigações de curto prazo ficaram negativas em aproximadamente US$ 11 bilhões.
Além disso, a dívida externa bruta alcançou cerca de US$ 286 bilhões. Esses dados evidenciam a limitada disponibilidade de divisas e a elevada exposição do país às condições de financiamento externo, fatores que dificultam a manutenção da estabilidade cambial e o cumprimento dos compromissos financeiros (Cepal, 2024).
As consequências dessas políticas estão sendo sentidas pela população argentina, com grandes empresas saindo do país, como a Whirlpool, que é dona da Brastemp, Consul e KitchenAid fechando a fábrica na Argentina e transferindo a produção para o interior de São Paulo. Nota-se que, com as saídas de grandes empresas e a diminuição de investimentos diretos, a economia é afetada, assim como as condições sociais da população do país (G1, 2026).
Desde que Milei assumiu o Governo, cerca de 236.845 argentinos ficaram desempregados (IHU, 2025). Consequentemente, a qualidade de vida reduz, na segunda metade de 2025, a projeção foi de cerca de 28,02% ou 13,5 milhões da população vive abaixo da linha da pobreza (INDEC, 2026). Esses dados evidenciam como as atuais políticas econômicas têm sido danosas ao setor industrial, refletindo-se no empobrecimento cada vez mais intenso da população.
Esses indicadores socioeconômicos revelam que a crise argentina ultrapassa dificuldades meramente conjunturais e está relacionada à forma como o país se insere historicamente na economia internacional. A análise dos Sistemas-Mundo, desenvolvida por Immanuel Wallerstein (2004), permite compreender essa inserção a partir de uma perspectiva histórica, considerando o capitalismo como um sistema mundial organizado por uma divisão internacional do trabalho e por relações diferenciadas entre centro, semiperiferia e periferia.
Dessa forma, as condições econômicas de um Estado também devem ser relacionadas às estruturas históricas e econômicas nas quais essas decisões são tomadas, a vulnerabilidade econômica argentina, portanto, está relacionada a uma trajetória de inserção internacional construída ao longo do tempo.
Contudo, Castro (2016) aborda a relação entre agente e estrutura nas relações internacionais, destacando que os Estados possuem capacidade decisória, embora atuem em um cenário internacional que também impõe limitações às suas opções e estratégias. Assim, as estruturas do sistema mundial estabelecem condicionamentos, mas as escolhas dos governos também influenciam a maneira como esses condicionamentos são administrados.
A partir dessa perspectiva, ao reduzir determinadas alternativas de cooperação e concentrar sua estratégia externa em parceiros específicos, o governo argentino modifica a forma como administra sua inserção internacional. Essa mudança não cria necessariamente as vulnerabilidades econômicas do país, mas pode influenciar sua reprodução, ao afetar a margem de negociação econômica e diplomática da Argentina.
A perspectiva de Wallerstein pode ser complementada pela abordagem estruturalista de Raúl Prebisch, que aprofunda a dimensão econômica dessa dinâmica a partir das especificidades latino-americanas. Para Prebisch (1949), as economias periféricas enfrentam limitações estruturais relacionadas à formação de capital, o que torna o capital estrangeiro um recurso capaz de complementar a insuficiência de poupança interna e contribuir para o aumento da produtividade, desde que empregado de maneira eficaz. O autor ressalta, contudo, que esse capital deveria possuir caráter transitório, de modo que o aumento da produtividade e da poupança interna permitisse reduzir gradualmente a necessidade de recursos externos.
Percebe-se, assim, a contradição central da estratégia adotada por Javier Milei. Ao buscar responder à instabilidade econômica imediata por meio da aproximação com os Estados Unidos e da obtenção de recursos externos, o governo atua sobre necessidades de curto prazo sem necessariamente modificar as condições estruturais relacionadas à vulnerabilidade argentina.
Portanto, o caso argentino de retração industrial, o saldo negativo de empregos e os níveis de pobreza apresentados anteriormente, devem ser analisados pelas alianças políticas estabelecidas, mas também pelas condições estruturais que sustentam essas relações.
Nesse sentido, a redução da vulnerabilidade argentina não depende apenas da obtenção de novos recursos externos, mas também da ampliação da estrutura produtiva, da preservação de alternativas de negociação e da diversificação das relações econômicas e diplomáticas. A capacidade de articular essas dimensões é fundamental para que as escolhas de política externa contribuam não apenas para responder às necessidades imediatas, mas também para ampliar a margem de autonomia econômica e diplomática do país e mudar sua estrutura.
REFERÊNCIAS:
CASTRO, Thales. Teoria das relações internacionais. 2. ed. rev. e atual. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2016. Disponível em: https://funag.gov.br/loja/download/1152-Teoria_das_Relacoes_Internacionais-novo.pdf. Acesso em: 5 out. 2026.
G1. Whirlpool fecha fábrica na Argentina e transfere produção para unidade no interior de SP. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2026/04/22/whirlpool-fecha-fabrica-na-argentina-e-transfere-producao-para-unidade-no-interior-de-sp.ghtml. Acesso em: 3 set. 2026.
GONZÁLEZ LEVAGGI, Ariel; ROBELO, Claudio. Argentina’s realignment with the United States: Milei’s reforms gain strategic support. Center for Strategic and International Studies, 30 abr. 2025. Disponível em: CSIS
INDEC. Instituto Nacional de Estatística e Censos da República Argentina. 2026.
INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS. A indústria argentina está em colapso: 28 empresas fecham as portas todos os dias. 2025.
INTERNATIONAL MONETARY FUND. Argentina. Disponível em: https://www.imf.org/en/countries/arg. Acesso em: 3 set. 2026.
INTERNATIONAL MONETARY FUND. Argentina: request for an Extended Arrangement under the Extended Fund Facility: press release; staff report; and statement by the Executive Director for Argentina. IMF Staff Country Reports, Washington, DC, v. 2025, n. 95, 2025.
PREBISCH, Raúl. O desenvolvimento econômico da América Latina e alguns de seus problemas principais. Santiago: CEPAL, 1949.
THE WALL STREET JOURNAL. Bessent says U.S. in swap line talks with Argentina. 2025. Disponível em: https://www.wsj.com/livecoverage/stock-market-today-dow-sp-500-nasdaq-09-24-2025/card/bessent-says-u-s-in-swap-line-talks-with-argentina-L8YJoU75Hq2tzQvRTaVe. Acesso em: 3 set. 2026.
El gobierno de Javier Milei oficializó que la Argentina no entrará a los Brics. Disponível em: https://www.lanacion.com.ar/politica/el-gobierno-de-javier-milei-oficializo-que-la-argentina-no-entrara-a-los-brics-nid29122023/
The Evolution of Chinese Engagement in Argentina under Javier Milei. Disponível em: https://www.csis.org/analysis/evolution-chinese-engagement-argentina-under-javier-milei?utm_source=chatgpt.com
COMISSÃO ECONÔMICA PARA A AMÉRICA LATINA E O CARIBE (CEPAL). Economic Survey of Latin America and the Caribbean, 2024: Argentina. Santiago: CEPAL, 2024. Disponível em: https://repositorio.cepal.org/server/api/core/bitstreams/9186c01d-e707-4e34-9357-1b7039a41244/content Acesso em: 2 out. 2026.
WALLERSTEIN, Immanuel. World-systems analysis: an introduction. Durham: Duke University Press, 2004.
