
Malu Andrade – acadêmica do 4 semestre do curso de Relações Internacionais da Unama
Todos os anos, durante o mês de outubro, a cor rosa ganha destaque em campanhas, instituições e espaços públicos. Por trás dessa mobilização, existe uma questão que merece atenção durante o ano inteiro: o câncer de mama e a importância de garantir que as mulheres tenham acesso à informação, à prevenção e ao tratamento adequado. Embora o Outubro Rosa seja uma campanha bastante conhecida, a doença ainda representa um grande desafio para a saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 2,4 milhões de mulheres foram diagnosticadas com câncer de mama no mundo em 2024 (OMS, 2026). No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer estima 78.610 novos casos por ano entre 2026 e 2028 (INCA, 2026). Esses dados reforçam que conscientizar a população é importante, mas também é necessário transformar essa conscientização em cuidados que estejam ao alcance de todas.
A preocupação com o câncer de mama não se limita às fronteiras de um país. A troca de conhecimentos científicos, o desenvolvimento de tratamentos e a atuação de organizações internacionais demonstram como a saúde depende de esforços conjuntos. Essa relação pode ser compreendida a partir da teoria da interdependência complexa, desenvolvida por Robert Keohane e Joseph Nye, que destaca a participação de diferentes atores e a importância da cooperação nas Relações Internacionais (KEOHANE; NYE, 2012). Nesse contexto, instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS) contribuem para orientar políticas de saúde e incentivar estratégias de diagnóstico e tratamento. O Outubro Rosa, portanto, também representa uma forma de mobilização internacional em torno de um problema que afeta milhares de famílias.
Essa cooperação também pode ser analisada a partir do conceito de regimes internacionais, desenvolvido por Stephen Krasner (1982), que os compreende como conjuntos de princípios, normas, regras e procedimentos de tomada de decisão em torno dos quais convergem as expectativas dos atores em determinada área das relações internacionais. No campo da saúde, essa perspectiva permite compreender como organismos internacionais, como a OMS, contribuem para estabelecer diretrizes, compartilhar conhecimentos e orientar políticas públicas voltadas ao enfrentamento de doenças como o câncer de mama. Assim, enquanto a interdependência complexa evidencia a necessidade de cooperação entre diferentes atores, os regimes internacionais ajudam a explicar como essa cooperação pode ser organizada e fortalecida por meio de compromissos, recomendações e práticas compartilhadas, ainda que sua implementação dependa das condições e decisões de cada país.
Além disso, quando se fala em prevenção, é importante compreender que não existe uma maneira de eliminar completamente o risco de desenvolver câncer de mama. Entretanto, alguns hábitos podem contribuir para reduzi-lo, como a prática regular de atividades físicas, a manutenção de uma alimentação equilibrada e a diminuição do consumo de bebidas alcoólicas. Além disso, conhecer o próprio corpo e procurar atendimento ao perceber alterações nas mamas são atitudes fundamentais.
A presença de nódulos, mudanças na pele ou secreções anormais precisa ser investigada por profissionais de saúde (OMS, 2026). No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda a realização de mamografia de rastreamento a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos, enquanto aquelas de 40 a 49 anos podem realizar o exame após receber orientações sobre seus benefícios e riscos. Nos casos em que existem sintomas, a avaliação deve acontecer independentemente da idade (Ministério da Saúde, 2025).
Apesar dos avanços da medicina, ainda existem dificuldades que impedem muitas mulheres de receber atendimento no momento necessário. A distância dos serviços de saúde, a demora na realização de exames e as desigualdades socioeconômicas podem comprometer o diagnóstico e o início do tratamento. Essa realidade mostra que a prevenção não depende apenas de decisões individuais, mas também da existência de políticas públicas eficientes.
Ao mesmo tempo, a ciência continua apresentando novas possibilidades de tratamento. Uma reportagem da Reuters destacou resultados positivos de uma pesquisa envolvendo exames de sangue para orientar o tratamento de determinados tipos de câncer de mama, demonstrando como as descobertas científicas podem contribuir para o enfrentamento da doença (REUTERS, 2025). Contudo, esses avanços precisam ser acompanhados de iniciativas que ampliem o acesso à saúde, para que seus benefícios não fiquem restritos a uma pequena parcela da população.
Dessa forma, o Outubro Rosa precisa ser visto como algo maior do que uma campanha de conscientização realizada durante um único mês. Sua importância está em incentivar a busca por informações confiáveis, fortalecer o cuidado com a saúde e lembrar que cada mulher deve ter condições de receber atendimento digno e humanizado. A cooperação entre países, os investimentos em pesquisas e o fortalecimento dos serviços públicos são caminhos fundamentais para enfrentar o câncer de mama. Afinal, falar sobre prevenção também é falar sobre desigualdade, acolhimento e responsabilidade coletiva. Mais do que distribuir fitas rosas em outubro, é necessário fazer com que o cuidado esteja presente na vida das mulheres durante todo o ano.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 626/2025-CGCAN/DECAN/SAES/MS: acesso à mamografia no SUS. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2025/nota-tecnica-no-626-2025-cgcan-decan-saes-ms.pdf.
INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). Síntese de resultados e comentários: estimativa 2026–2028. Rio de Janeiro: INCA, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/numeros/estimativa/sintese-de-resultados-e-comentarios.
KEOHANE, Robert O.; NYE, Joseph S. Power and interdependence. 4. ed. Boston.
KRASNER, Stephen D. Structural causes and regime consequences: regimes as intervening variables. International Organization, Cambridge, v. 36, n. 2, p. 185-205, 1982
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Breast cancer. Genebra: OMS, 3 jul. 2026. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/breast-cancer.
STEENHUYSEN, Julie. Blood test-guided treatment with AstraZeneca pill cuts breast cancer progression risk. Reuters, 1 jun. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/sustainability/boards-policy-regulation/blood-test-guided-treatment-with-astrazeneca-pill-cut-risk-breast-cancer-2025-06-01/.
