Foto: Alexandre Pereira, G1

Ana Victória Padilha Carneiro (acadêmica do 6°semestre de R.I da UNAMA)

Gabriele Nascimento Ribeiro (acadêmica do 6°semestre de R.I da UNAMA)


A Amazônia está entre os principais biomas do brasil mais atingidos por incêndios e crises ambientais graves. Um exemplo disso ocorreu no último El Niño, em 2024, quando a região enfrentou uma seca severa que atingiu rios, matou animais e afetou fortemente as populações que dependiam do acesso à água, além de intensificar as queimadas. Atualmente, nota-se que um cenário semelhante, ou até mais grave, ao de dois anos atrás vem se desenhando, e um dos estados mais afetados por tais desdobramentos é o Amazonas.


Entre o final de setembro e o início de outubro de 2026, Manaus e sua região metropolitana ficaram cobertas por fumaça provocada por incêndios, principalmente no sul do estado do Amazonas. De acordo com o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) (2026), em setembro de 2026 foram registrados 3.726 focos ativos de incêndio no Amazonas. O programa “queimadas” do instituto revela também que entre os dias 3 e 4 de outubro, o município com o maior número de focos de calor é Lábrea (AM), localizado no sul do estado, com 96 focos ativos.


Além disso, segundo dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima por meio do Boletim do Fogo Brasil (2026), no Amazonas as áreas queimadas entre 21/09/2026 e 07/10/2026 correspondem a cerca de 447.000 hectares, o equivalente a aproximadamente 620.000 campos de futebol. Os dados demonstram a dimensão dos incêndios, sujeitos principalmente à influência do super El Niño, que aumenta os riscos de incêndio em várias regiões do Brasil devido à estiagem e às ondas de calor extremo.


A quantidade de partículas de fumaça liberadas durante um incêndio pode ser muito alta. Sem chuva, essas partículas podem permanecer em suspensão por mais tempo, facilitando a dispersão. Por isso, há nuvens de fumaça cobrindo os municípios do Amazonas durante esse período. Com a cidade coberta por fumaças, a péssima qualidade do ar colocou a capital amazonense no topo do ranking global de poluição no mês de setembro.


Segundo Amazônia Real (2026), dados revelados pelo SELVA (Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental), uma plataforma desenvolvida pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), demonstram que Manaus atingiu o pico extremo na qualidade de 324,1 µg/m³ de material particulado fino (PM2.5) na atmosfera, em 23 de setembro de 2026. De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde, as últimas Diretrizes de Qualidade do Ar da OMS recomendam o limite de segurança de 15 µg/m³, para 24 horas.


Na manhã do dia 06 de outubro de 2026, Manaus apresentou o nível de 110.5 µg/m³ de PM2.5. A Organização Pan-Americana de Saúde alerta que o material particulado, especialmente o PM2,5, é extremamente danoso para a saúde humana, ele é capaz de penetrar profundamente nos pulmões e entrar na corrente sanguínea, causando impactos cardiovasculares, cerebrovasculares (AVC) e respiratórios.


Paralelamente, de acordo com Bonets e Palhares (2026), a cidade Manaus registrou um aumento de cerca de 16% em atendimentos respiratórios, além disso, a cidade emitiu notas recomentando que a população se mantenha hidratada, que não se exponha a fumaça e que se utilize máscara de proteção respiratória.


A origem de queimadas no bioma Amazônico é impulsionada pela seca e por fenômenos climáticos, porém estão relacionadas diretamente com a ação humana. De acordo com Moura (2024), Renata Libonati, coordenadora do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirma que 99% dos incêndios no Brasil são causados pela ação humana.


No contexto amazônico, as ações antrópicas estão ligadas à especulação fundiária e ao interesse em atividades econômicas como pecuária e agricultura extensiva. Segundo Salati (2024), o coordenador do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal da USP, Ricardo Rodrigues, afirma que, na Amazônia, a área sem floresta vale muito mais que a floresta em pé, em Paragominas, por exemplo, o hectare sem floresta pode valer até 10 vezes mais.


Além disso, de acordo com o relatório “Fatos Amazônia 2026”, a área destinada à agricultura na região passou de cerca de 8 milhões de hectares em 2000 para 30 milhões em 2024. No mesmo período, o rebanho bovino cresceu de 47 milhões para 107 milhões de cabeças, fazendo com quem a Amazônia Legal concentrasse 45% do rebanho brasileiro em 2024 (Santos et al., 2026).


Outro fator relacionado aos índices de queimadas é a flexibilização de leis ambientais. Entre elas está o Projeto que cria a Lei Geral do Licenciamento Ambiental (PL 15.190/2025), cujo texto afrouxa as exigências para empreendimentos que exploram recursos ambientais. O projeto foi aprovado com apoio da bancada ruralista e fortemente do Partido Liberal, entre os votos a favor destaca-se o de Flávio Bolsonaro, atual candidato a presidência do Brasil.


Os principais pontos críticos da PL, residem na limitação jurídica da atuação dos órgãos intervenientes apenas a terras indígenas e quilombolas formalmente homologadas e registradas. Outro ponto de criticidade dessa lei está ao desobrigar a exigência de estudos de impacto cumulativo e de planos rigorosos de mitigação de emissões de gases de efeito estufa a novos empreendimentos agrícolas em biomas sensíveis.


Na prática, o projeto fragiliza a capacidade do país de combater o avanço do desmatamento e o uso não sustentável do solo. A blindagem jurídica, também, deixa desprotegidos territórios em processo de demarcação e áreas de conservação indireta, enfraquecendo a salvaguarda contra o desmatamento e os incêndios criminosos associados à grilagem de terras.


Diante de cenários climáticos cada vez mais severos, marcados por secas prolongadas e ondas de calor extremo, essa desarticulação do arcabouço normativo de proteção socioambiental intensifica a vulnerabilidade das regiões afetadas, convertendo a omissão legislativa em um catalisador das queimadas que sufocam biomas inteiros e ameaçam gravemente a saúde pública.


Pois, a seca e as queimadas na Amazônia não geram apenas fumaça, mas paralisam a hidrovia, um transporte para insumos, alimentos e medicamentos, além disso, isolam completamente populações ribeirinhas, localidades e cidades que dependem exclusivamente dos rios para a locomoção.


Portanto, a situação atual da capital amazonense não deve ser analisada apenas como um “caso isolado acidental”, mas sim, como uma Zona de Sacrifício delimitada de forma estratégica, pela expansão agressiva e desordenada de empreendimentos agropecuários e de infraestrutura sobre áreas vulneráveis como o bioma amazônico. Trata-se, então, de uma manifestação de injustiça climática, na qual as populações locais do Norte são invisibilizadas e pagam com sua saúde e subsistência o preço da degradação ambiental promovida pela omissão estatal e pelo capital predatório.


Em conclusão, superar essa crise exige não apenas o combate intensivo dos focos de incêndio e à grilagem de terras, mas sim, a reafirmação do licenciamento ambiental como instrumento sério e soberano de proteção a vida, a biodiversidade e ao futuro dos biomas brasileiros.


Dessa forma, recomenda-se a leitura do artigo: “Justiça Climática na Amazônia: a Contribuição Da Comunicação Ambiental às Vésperas da COP30”, publicado pela revista ORGANICOM, o texto aborda as conexões entre emergência climática, direitos das populações tradicionais e a conservação do bioma amazônico. A publicação discute a urgência de garantir salvaguardas socioambientais para territórios vulneráveis e analisa como a degradação e a grilagem afetam diretamente a subsistência das comunidades ribeirinhas e indígenas no Norte do Brasil.

Disponível em: < https://revistas.usp.br/organicom/article/download/237467/218500/793613 >

Ademais, indica-se a leitura do livro: “A Queda do Céu: Palavras de um xamã yanomami”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. O livro é uma referência indispensável para compreender a gravidade das queimadas, a contaminação do ar e da água, e o avanço predatório sobre o ecossistema amazônico, articulando uma forte crítica socioambiental à omissão governamental e à superexploração econômica. A obra ajuda a aprofundar o entendimento sobre os impactos da ação humana capitalista na destruição da floresta sob a perspectiva dos povos originários.

Disponível para compra em: < https://www.amazon.com.br/queda-do-c%C3%A9u-Davi-Kopenawa/dp/8535926208 >

Por conseguinte, faz-se recomendação a leitura da publicação “As crescentes zonas de sacrifício na América Latina”, de autoria de Sabrina Fernandes, traduzido por Fabian Cantieri e publicado pela Revista Rosa. A obra analisa de forma crítica como o modelo extrativista e a lógica do acúmulo de capital transformam territórios latino-americanos em “zonas de sacrifício”, expondo ecossistemas vulneráveis e populações marginalizadas a contaminações e degradações severas em nome do desenvolvimento econômico. A autora aborda sobre a urgência do debate sobre justiça climática, transição ecológica justa e o papel do Estado e das resistências populares frente ao avanço do capital predatório na região.


Disponível em: < https://revistarosa.com/12/decrescimento/zonas-de-sacrificio >

Por último, como uma indicação extra, convida-se a visualização da reflexão em vídeo do renomado pesquisador latino-americano Eduardo Gudynas sobre o conceito e as implicações socioecológicas das “zonas de sacrifício”. Na exposição, o biólogo uruguaio desconstrói a origem histórica do termo e argumenta criticamente como territórios periféricos e biomas inteiros são deliberadamente rotulados e sacrificados em prol da exportação de recursos estratégicos, evidenciando quem arca com os custos humanos e ambientais dessa lógica extrativista agressiva, assim como aborda a autora Sabrina Fernandes. Tal recomendação se dá justamente para facilitar o entendimento sobre a temática através do recurso audiovisual.

Disponível em: < https://youtu.be/GRQR37QxfpU?is=0aRQIvqFS3EuyzB7 >

REFERENCIAS:


BONETS, Vitor; PALHARES, Fernanda. Manaus tem aumento de atendimentos respiratórios por má qualidade do ar. CNN Brasil, São Paulo. Publicado em: 24 set. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/norte/am/manaus-tem-aumento-de-atendimentos-respiratorios-por-ma-qualidade-do-ar/. Acesso em: 06 out. 2026.


BRASIL. Câmara dos Deputados. Portal da Câmara dos Deputados. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2025. Disponível em: https://www.camara.leg.br. Acesso em: 7 out. 2026.


CLIMAINFO. Fumaça volta a encobrir Manaus e qualidade do ar continua péssima. ClimaInfo, publicado em: 25 set. 2026. Disponível em: https://climainfo.org.br/2026/09/25/fumaca-volta-a-encobrir-manaus-e-qualidade-do-ar-continua-pessima/. Acesso em: 5 out. 2026.


INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). Programa Queimadas: situação atual. São José dos Campos: INPE, 2026. Disponível em: https://terrabrasilis.dpi.inpe.br/queimadas/situacao-atual/situacao_atual/. Acesso em: 06 out. 2026.


INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). Monitoramento dos Focos Ativos por País. Programa Queimadas. INPE, 2026. Disponível em: https://share.google/Qgo0Khlzp3M96oTl6. Acesso em: 6 out. 2026.


MOURA, Bruno de Freitas. Monitoramento mostra que 99% dos incêndios são por ação humana. Agência Brasil, Rio de Janeiro. Publicado em : 20 set. 2024. Disponível em: https://share.google/pVA9NxAgvnMmSXx1D. Acesso em: 7 out. 2026.


MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE E MUDANÇA DO CLIMA. BOLETIM DO FOGO BRASIL 2026. 2026. Disponível em: < https://share.google/H6cQrDKJdBn1zhbj4>. Acesso em: 05 out. 2026.


O AR de Manaus é o pior do mundo. Amazônia Real, Manaus. Publicado em: 22 set. 2026. Disponível em: https://amazoniareal.com.br/o-ar-de-manaus-e-o-pior-do-mundo/. Acesso em: 06 out. 2026.


ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Novos dados da OMS revelam que bilhões de pessoas ainda respiram ar insalubre. OPAS, Genebra. Publicado em: 4 abr. 2022. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/4-4-2022-novos-dados-da-oms-revelam-que-bilhoes-pessoas-ainda-respiram-ar-insalubre. Acesso em: 5 out. 2026.


SANTOS, Daniel; FRANÇA, Arthur; LIMA, Manuele; VILHENA, Agatha; VERÍSSIMO, Beto. Fatos da Amazônia 2026. Belém: Amazônia 2030. Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), 2026. Disponível em: <https://share.google/fyANLabl8wURFwKOM >. Acesso em: 12 out. 2026.

SELVA: Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental. Manaus: Universidade do Estado do Amazonas, 2019. Disponível em: https://appselva.com.br. Acesso em: 06 out. 2026.