
Lucas Cardoso – Acadêmico do 8° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
Ficha Técnica:
Gênero: Não ficção / História / Sociologia
Edição: Tabla (2024)
Páginas: 276
Ano da publicação original: 1990
Autora: Fatima Mernissi
Tradução: Marília Scalzo
País de origem: Marrocos
Em Sultanas esquecidas: mulheres chefes de Estado no Islã, a socióloga marroquina Fatima Mernissi realiza uma investigação histórica sobre a presença de mulheres no exercício do poder político em diferentes sociedades islâmicas. Publicada originalmente em francês em 1990 e traduzida para o português no Brasil apenas em 2024, a obra parte de uma questão aparentemente simples: seria realmente verdade que nenhuma mulher havia governado um Estado muçulmano antes de figuras contemporâneas como Benazir Bhutto? (MERNISSI, 2024, p. 15-24).
A partir dessa pergunta, Mernissi percorre mais de treze séculos de história e recupera trajetórias de mulheres que ocuparam posições de autoridade como rainhas, sultanas e governantes. Seu objetivo não é apenas apresentar personagens esquecidas, mas questionar os mecanismos políticos, sociais e historiográficos que contribuíram para o apagamento dessas experiências (MERNISSI, 2024, p. 25-47).
A discussão ganha força a partir do caso de Benazir Bhutto, que chegou ao cargo de primeira-ministra do Paquistão em 1988. Naquele momento, setores religiosos e políticos afirmavam que uma mulher não poderia governar um Estado de maioria muçulmana porque não existiria precedente histórico para isso. É justamente essa afirmação que leva Mernissi a investigar o passado e demonstrar que a história política do mundo islâmico foi muito mais diversa do que essa narrativa fazia parecer (MERNISSI, 2024, p. 15-24).
Ao longo da obra, a autora apresenta diferentes mulheres que exerceram autoridade política em sociedades islâmicas (MERNISSI, 2024). Entretanto, Mernissi não se limita às biografias. Um dos aspectos mais interessantes do livro está na maneira como ela questiona os próprios critérios utilizados para definir quem pode ser considerado um governante. A ausência do título de califa, por exemplo, não significa necessariamente ausência de exercício de poder. A autora problematiza, portanto, a utilização de determinadas categorias políticas como instrumentos para excluir mulheres da própria história do poder (MERNISSI, 2024, p. 48-61; 105-126).
Nesse sentido, Sultanas esquecidas pode ser compreendido como uma reflexão sobre a relação entre poder, memória e gênero. A existência histórica de mulheres governantes entra em conflito com determinadas interpretações que apresentam a participação política feminina como incompatível com a tradição islâmica. Mernissi procura demonstrar que é necessário distinguir entre a religião, suas fontes e as interpretações políticas construídas historicamente em torno delas (MERNISSI,2024, p. 25-47; 105-126).
A discussão desenvolvida por Mernissi pode ser aproximada da Teoria Feminista das Relações Internacionais, especialmente das contribuições de Cynthia Enloe. Em Bananas, Beaches and Bases, Enloe questiona a forma tradicional de compreender a política internacional ao perguntar, fundamentalmente, “onde estão as mulheres?”. Sua abordagem procura identificar como as relações de gênero participam da construção das estruturas políticas e como a ausência das mulheres em determinadas narrativas pode ser resultado de processos históricos de marginalização (ENLOE, 2014).
Essa perspectiva dialoga diretamente com Sultanas esquecidas, uma vez que Mernissi procura recuperar mulheres que exerceram autoridade política em diferentes sociedades islâmicas e questiona o processo pelo qual essas experiências foram relegadas ao esquecimento. Assim como Enloe desloca o olhar das estruturas tradicionais da política internacional para sujeitos frequentemente invisibilizados, Mernissi desloca o olhar da narrativa predominantemente masculina sobre o poder político no mundo islâmico para as mulheres que também participaram de sua construção (MERNISSI, 2024, p. 127-158).
A aproximação entre as duas autoras permite compreender que a ausência das mulheres das narrativas políticas não significa necessariamente ausência de participação histórica. Pelo contrário, pode revelar os próprios critérios utilizados para definir quem é considerado um ator político relevante. Nesse sentido, Sultanas esquecidas contribui para uma leitura feminista das relações de poder ao demonstrar que gênero não é apenas uma característica dos indivíduos, mas uma dimensão que influencia a construção da autoridade, da legitimidade e da memória política (MERNISSI, 2024, p. 159-250).
Essa característica é particularmente importante para os estudos internacionais porque impede análises que tratem “o Islã” ou “o mundo muçulmano” como uma realidade política única. A própria trajetória das governantes apresentadas por Mernissi demonstra a existência de diferentes experiências históricas e culturais dentro das sociedades islâmicas.
Outro aspecto importante da obra é a relação entre memória e poder. Ao recuperar personagens que foram marginalizadas pelos registros históricos, Mernissi não está simplesmente acrescentando mulheres a uma narrativa já existente. Sua investigação questiona a própria forma como essa narrativa foi construída e quais grupos tiveram suas experiências consideradas relevantes para a história política (MERNISSI, 2024, p. 127-158).
Dessa maneira, Sultanas esquecidas apresenta uma contribuição que ultrapassa a discussão sobre mulheres governantes. O livro propõe uma reflexão sobre quem possui autoridade para definir o passado, quais experiências são preservadas pela memória coletiva e de que maneira interpretações políticas podem transformar determinadas narrativas históricas em supostas verdades universais (MERNISSI, 2024, p. 251-266).
Por isso, a obra de Fatima Mernissi permanece relevante para estudantes de História, Ciências Sociais e Relações Internacionais. Ao relacionar gênero, religião, memória e poder, a autora demonstra que compreender a participação das mulheres na política exige não apenas observar as instituições contemporâneas, mas também revisitar as narrativas históricas que determinaram quem seria lembrado como sujeito político.
Assim, Sultanas esquecidas pode ser compreendido como uma tentativa de reconstruir parte da história política do mundo islâmico a partir de personagens que foram marginalizadas ou esquecidas. Mais do que apresentar uma coleção de biografias, Mernissi questiona as estruturas que definem quem pode ocupar o poder e quem merece ser lembrado por tê-lo exercido. A obra, portanto, oferece uma importante contribuição para compreender as relações entre gênero, poder, religião, identidade e política internacional.
Referências:
ENLOE, Cynthia. Bananas, beaches and bases: making feminist sense of international politics. 2. ed. Berkeley: University of California Press, 2014. 464 p.
MERNISSI, Fatima. Sultanas esquecidas: mulheres chefes de Estado no Islã. Tradução de Marília Scalzo. São Paulo: Tabla, 2024.
PUBLISHNEWS. A história do Islã a partir do protagonismo feminino. PublishNews, 8 mar. 2024.
