
Foto: Fundação 1 de Maio
Joelma Costa – acadêmica do 8° semestre de Relações Internacionais da UNAMA
A agricultura familiar desempenha um papel fundamental na produção de alimentos, no desenvolvimento socioeconômico e na promoção da alimentação saudável no Brasil. Este modelo de produção envolve agricultores familiares e comunidades tradicionais, cuja relação com o território contribui para a manutenção de práticas produtivas e conhecimentos locais.
A Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006, estabelece diretrizes para a formulação de políticas públicas direcionadas à agricultura familiar e aos empreendimentos familiares rurais (Brasil, 2006). Posteriormente, o país instituiu a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO), por meio do Decreto nº 7.794/2012, com o objetivo de promover a transição agroecológica, a produção orgânica, o desenvolvimento sustentável e a oferta de alimentos saudáveis (Brasil, 2012).
A criação dessas políticas representou um avanço institucional no reconhecimento da agricultura familiar e na promoção de práticas agroecológicas. O incentivo a este modelo produtivo pode contribuir para o desenvolvimento regional, a valorização da produção local e a ampliação da oferta de alimentos frescos e nutritivos. Entretanto, o fortalecimento da agricultura familiar também exige atenção às desigualdades econômicas e aos desafios que limitam as condições de produção e comercialização dos pequenos agricultores.
Robert W. Cox autor da Teoria Crítica das Relações Internacionais, contribui para compreender as estruturas econômicas e políticas e as relações de poder que influenciam a organização da sociedade. Para Cox (2021), a Teoria Crítica busca compreender como a ordem social e política foi constituída historicamente e de que maneira as estruturas existentes podem ser transformadas. Diferentemente de uma abordagem que aceita as instituições e as relações de poder como dadas, esta perspectiva questiona suas origens e considera os processos de mudança social.
Cox (2021) diferencia a Teoria Crítica da teoria de resolução de problemas. Enquanto a segunda procura solucionar questões dentro das estruturas e instituições existentes, sem necessariamente questionar sua organização, a primeira busca compreender como essas estruturas foram constituídas historicamente e quais interesses contribuem para sua manutenção. Assim, a análise não se limita aos problemas imediatos, mas considera as relações sociais, econômicas e políticas que influenciam a organização da sociedade.
A contribuição desse pensamento para a discussão sobre a agricultura familiar está na possibilidade de questionar as estruturas que condicionam a produção e a distribuição de alimentos. O acesso desigual ao crédito, às tecnologias, à assistência técnica e aos mercados consumidores, por exemplo, pode influenciar as oportunidades de desenvolvimento dos agricultores familiares. Desta forma, a análise crítica permite investigar como as relações de poder e as prioridades econômicas interferem no fortalecimento de modelos produtivos sustentáveis.
Sob essa perspectiva, a agroecologia pode ser discutida não apenas como um conjunto de práticas voltadas à sustentabilidade ambiental, mas também como uma alternativa cujo fortalecimento depende de condições econômicas, políticas e sociais. O pensamento de Cox (2021) contribui, portanto, para refletir sobre as possibilidades de transformação das estruturas que dificultam o desenvolvimento da agricultura familiar e a ampliação do acesso à alimentação saudável.
Em paralelo a essa discussão, a Revolução Verde, intensificada a partir da década de 1960, marcou um processo de transformação da agricultura por meio da incorporação de tecnologias voltadas ao aumento da produtividade (Campagnolla; Macêdo, 2022). No Brasil, este processo esteve associado a três pilares importantes: pesquisa agropecuária, assistência técnica e crédito rural subsidiado.
Apesar de seu papel no avanço da produção agrícola, esse modelo também suscitou críticas relacionadas aos seus impactos ambientais e às desigualdades no acesso aos recursos produtivos. Além disso, as transformações dos sistemas alimentares e a expansão dos alimentos processados e ultraprocessados levantam preocupações sobre o consumo de produtos com elevados teores de sal, açúcar e gorduras saturadas, além da presença de determinados aditivos, aspectos que podem se contrapor às recomendações de uma alimentação saudável (Campagnolla; Macêdo, 2022).
Em paralelo ao pensamento de Cox (2021), essa transformação histórica permite questionar como as estruturas econômicas e as relações de poder influenciam a organização dos sistemas produtivos e alimentares. Assim, a análise da Revolução Verde, em conjunto com a discussão sobre agricultura familiar e agroecologia, possibilita refletir sobre os desafios para a construção de modelos de produção que conciliem produtividade, sustentabilidade ambiental e acesso à alimentação saudável.
Diante disso, a agricultura familiar e a agroecologia representam caminhos importantes para a promoção de uma alimentação saudável e de um modelo de produção mais sustentável, destacando sua importância para a qualidade de vida da população global, uma vez que abrangem esferas sociais, econômicas, políticas e ambientais.
A partir do pensamento de Robert W. Cox, é possível compreender que o fortalecimento dessas práticas depende também da transformação das estruturas econômicas e das relações de poder que condicionam o acesso aos recursos produtivos. O fortalecimento destas práticas evidencia que a agricultura familiar pode conquistar espaço não apenas nas comunidades locais, mas também no cenário global. Portanto, ampliar o apoio aos agricultores familiares por meio de políticas públicas é fundamental para conciliar desenvolvimento, sustentabilidade ambiental e segurança alimentar.
Referências:
BRASIL. Decreto nº 7.794, de 20 de agosto de 2012. Institui a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica. Brasília, DF, 2012. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/decreto/d7794.htm. Acesso em: 11 out. 2026.
BRASIL. Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006. Estabelece as diretrizes para a formulação da Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais. Brasília, DF, 2006. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11326.htm. Acesso em: 11 out. 2026.
CAMPAGNOLLA, Clayton; MACÊDO, Manoel Moacir Costa. Revolução Verde: passado e desafios atuais. Cadernos de Ciência & Tecnologia, Brasília, DF, v. 39, n. 1, p. e26952, 13 jun. 2022.
COX, Robert W. Forças sociais, Estados e ordens mundiais: além da teoria de Relações Internacionais. Tradução de Caio Gontijo. Oikos, Rio de Janeiro, v. 20, n. 2, p. 10–37, 2021. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/oikos/article/view/52053. Acesso em: 11 out. 2026.
