
Caira Queiroz – 8° Semestre
A comunicação desempenha um papel fundamental na vida em sociedade, pois é através da troca de informações que indivíduos adquirem e constroem valores, cultura, gostos, conhecimentos e opiniões sobre a realidade do meio em que convivem (famílias, amigos, educação, etc).
Com o avanço da tecnologia, a comunicação transcendeu seu termo ao desempenhar um papel crucial na organização da sociedade contemporânea, pois a ela, como bem pontua Bovério (2018), foi acrescida a tecnologia, que por sua vez, a tornou sem fronteiras em todas as esferas sociais, ampliando e modificando a maneira de como as pessoas se conectam e interagem.
No entanto, o poder de produzir e divulgar informações é desigualmente distribuído entre os diferentes setores da sociedade. Como discute Falcão (2026), a concentração dos meios de comunicação em grandes grupos empresariais faz com que tais operem sob dependência e lógica da publicidade, de acordos comerciais, de parcerias com elites e até mesmo do próprio Estado, levantando questionamentos entre interesse público e interesse comercial.
Segundo Lopes, Karl Marx já compreendia a imprensa do século XIX como instrumento ideológico aos interesses de classes com poderes econômicos, a fim de legitimar a dominação desses na exploração de classes subalternas. Hoje, em meio à complexidade do século XXI, esses mecanismos persistem e se sofisticam sob as novas configurações do capitalismo financeiro, informacional e digital, mesmo tendo seu discurso revestido de imparcialidade e compromisso ético.
Dessa forma, ao selecionar, priorizar e naturalizar interesses e disputas de quem está no poder, mostra o quão há uma influência tendenciosa na orientação da opinião pública como o todo, onde a escolha dos acontecimentos que recebem destaque e a maneira como são apresentados pode favorecer determinadas perspectivas em detrimento de outras.
Trazendo tal análise sob a nova configuração da digitalização, essa discussão ultrapassou os meios de comunicação tradicionais. Atualmente, empresas como Meta, Google e outras bightecs administram plataformas digitais e ditam tendências globais e comandando a circulação de informações (CRISÓSTOMO, 2025). Através dos algoritmos, elas organizam a recomendação e a visibilidade dos conteúdos publicados, que, inclusive, são geralmente produzidos por inteligências artificiais, trazendo grandes riscos de superficialidade, disseminação de fake news, erros factuais e deepfakes.
Sendo assim, é perceptível que tal perspectiva levanta questionamentos sobre quem controla essas plataformas digitais que é onde grande parte das informações circulam e o usuário, por sua vez, está cada vez mais imerso às realidades que o algoritmo lhe apresenta. Embora a internet permita que diferentes pessoas publiquem e compartilhem conteúdos, as principais plataformas digitais são administradas por empresas privadas, que definem suas regras de funcionamento e usam o algoritmo, um conjunto finito de instruções que define o sequenciamento de regras a fim de executar determinada ação no campo virtual (SHIMABUKURO; LIMA, 2024), para impulsionar ou omitir publicações através da “recomendação”, dependendo do seu próprio interesse.
Ou seja, debater sobre essas amarras dos meios de comunicação da contemporaneidade, tendo essa percepção de que quem as controla estabelece os critérios que influenciam o que chega aos usuários, é também debater sobre como o problema democratico está no fato de que critérios definidos por interesses privados podem influenciar quais informações recebem maior visibilidade e quais vozes têm dificuldades de alcançar o público.
Por exemplo, a antropóloga Letícia Cesarino (2026) argumentou recentemente o quanto as plataformas não são neutras e que “não dá para falar de política, eleição e comunicação sem falar nas redes sociais”. Em sua entrevista à Intercept Brasil, também é destacado casos da inteligência artificial da Meta, no WhatsApp, aceitando pedidos para gerar imagens com “Flávio 22”, mas restringindo o mesmo prompt quando é “Lula 13”. Destaca também outros casos como banimentos, restrições e queda no alcance de perfis do Instagram que postaram sobre as eleições no Brasil (LIMA, 2026).
Devido ao ocorrido, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) se reuniu com representantes da Meta para debater como as ferramentas da empresa podem contribuir nesse período eleitoral braileiro. Segundo o próprio TSE, estavam na pauta o mal uso da IA nas plataformas e a preservação de dados. Por sua vez, a Meta relatou que “as duas campanhas foram impactadas pela geração de conteúdos de inteligência artificial considerados inadequados” e que a empresa se comprometeu em empenhar esforços para impedir impulsionamentos de propaganda eleitoral feitos com moeda estrangeira e por apoiadores (TSE, 2026).
A democracia depende do acesso à informação, da pluralidade de opiniões e da participação coletiva. Como observado, e entre tantos outros exemplos de interferências em eleições através das redes sociais (EL PAÍS, 2018), a concentração desse poder pode limitar o alcance da diversidade de debate e influenciar na maneira como as pessoas compreendem questões políticas e sociais que lhes são apresentadas. Vale ressaltar que não significa que as plataformas determinam as escolhas dos cidadãos, mas elas participam diretamente na organização desse ambiente informacional em que as escolhas são construídas.
Diante desse cenário, mídias populares surgem como uma forma de resistência a essa concentração do poder comunicacional. Por meio das iniciativas comunitárias, independentes e vinculadas a movimentos sociais, diferentes grupos podem produzir e divulgar suas próprias narrativas (PERUZZO, 2009). A mídia popular pode resistir ao controle das narrativas mesmo quando depende de plataformas controladas por grandes empresas, onde a resistência nesse caso não significa estar fora desses espaços, mas disputar visibilidades dentro deles.
E é justamente onde se insere a lente teórica de Michel Foucault ao discutir como a produção e a circulação dos discursos não ocorrem de maneira livre, mas são influenciados por mecanismos de controle e relações de poder, moldando narrativas na sociedade. Em “A ordem do discurso” (1970), o autor questiona a ideia de que qualquer pessoa tem as mesmas condições de ser ouvida, pois embora os indivíduos possam produzir discursos, nem todos possuem o mesmo reconhecimento, autoridade ou oportunidade de circulação.
Uma informação publicada por um grande veículo de comunicação pode receber mais atenção e ser considerada confiável do que a mesma informação publicada em um coletivo comunitário. Trazendo para as redes sociais, a possibilidade de publicar conteúdos autorais não garante que ele será visto, já que as plataformas organizam a circulação destas publicações por meio de critérios.
Na perspectiva foucaultiana (1999), “onde há poder, há resistência” e ela pode surgir dentro das próprias relações (FOUCAULT, 1999, pág.71). Ao questionar normas, desafiar discursos dominantes e produzir outras formas de compreender a realidade, torna-se assim fundamental a prática da mídia popular.
Portanto, conclui-se que, discutir a relação entre mídia popular, democracia e resistência significa perceber que a comunicação pode não ser apenas uma mediadora dos fatos quando está concentrada nas mãos das mídias corporativas, surgindo assim questionamentos sobre as desigualdades de acesso à visibilidades. Afinal, uma democracia efetiva depende não apenas do direito de falar, mas também de condições para que diferentes vozes sejam ouvidas e participem da construção da realidade coletiva, seja ela analógica ou virtual.
REFERÊNCIAS
BOVÉRIO, Maria Aparecida. COMUNICAÇÃO, TECNOLOGIA E SOCIEDADE: a importância da comunicação para a socialização do homem. v. 15 n. 1 (2018): Interface Tecnológica. DOI: https://doi.org/10.31510/infa.v15i1.327.
CRISÓSTOMO, Maryellen. Os donos do mundo: big techs e a influência nas políticas locais e globais. Le Monde Diplomatique Brasil, 2025. Disponível em https://diplomatique.org.br/os-donos-do-mundo-big-techs-e-a-influencia-nas-politicas-locais-e-globais/. Acesso em 13 de out de 2026.
EL PAÍS. Notícias falsas ameaçam processos eleitorais na América Latina. El País, 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/14/internacional/1521060611_975112.html. Acesso em 16 de out de 2026.
FALCÃO, Maria Luiza. O que é mídia corporativa? Rede Estação Democracia, 2026. Disponível em https://red.org.br/noticias/o-que-e-a-midia-corporativa/#google_vignette. Acesso em 10 de out de 2026.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. 13. ed. Tradução: Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1999.
LIMA, Eduardo. ENTREVISTA: ‘A Meta está sabotando as eleições’, diz Letícia Cesarino. Intercept Brasil, 2026. Disponível em: https://www.intercept.com.br/2026/10/14/entrevista-meta-sabotando-eleicoes/. Acesso em 15 de out de 2026.
LOPES, Elisabeth. Como a mídia corporativa constrói narrativas e disputa poder no Brasil. Brasil 247, 2026. Disponível https://www.brasil247.com/blog/como-a-midia-corporativa-constroi-narrativas-e-disputa-poder-no-brasil/#google_vignette. Acesso em 11 de out de 2026.
PERUZZO, Cicilia M. Krohling. Movimentos sociais, cidadania e o direito à comunicação comunitária nas políticas públicas. Revista Fronteiras – estudos midiáticos – 11(1): 33-43, janeiro/abril 2009.
SHIMABUKURO, Igor; LIMA, Lucas. O que é algoritmo? Entenda como funciona o conjunto de instruções de um programa. Tecnoblog, 2024. Disponível em: https://tecnoblog.net/responde/o-que-e-algoritmo/. Acesso em 17 de out de 2026.
TSE. TSE ouve Meta sobre aprimoramento de medidas para enfrentamento da desinformação na reta final das eleições. TSE, 2026. Disponível em https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/tse-ouve-meta-sobre-aprimoramento-de-medidas-para-enfrentamento-da-desinformacao-na-reta-final-das-eleicoes. Acesso em 16 de outubro de 2026.
