Fonte: BBC News Brasil

Rodrigo Lobato (Acadêmico do 8° semestre de R.I da UNAMA)

Daniela Rodrigues (Acadêmica do 2° semestre de R.I da UNAMA)

Em setembro de 2026, pela primeira vez, os exércitos dos Estados Unidos, Argentina, Peru e Chile se reuniram em um exercício militar na Amazônia peruana. A atividade foi apresentada como uma preparação para eventuais combates na floresta e, segundo autoridades estadunidenses, para a defesa do hemisfério ocidental.

Sob outra perspectiva, o exercício levanta questionamentos acerca dos interesses estratégicos dos Estados Unidos na América Latina e das possíveis implicações de sua presença militar para a soberania dos países pan-amazônicos.

A Pan-Amazônia abrange territórios de diferentes países sul-americanos e constitui não apenas a maior floresta tropical do mundo, mas também uma região de relevância geopolítica, em razão de seus recursos naturais, biodiversidade e posição estratégica. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo,  o Brasil desempenhou um importante papel na logística de guerra por meio do fornecimento de borracha natural extraída na Amazônia, o que reforçou a importância estratégica dos recursos regionais para o contexto internacional.

Diante desse cenário, faz-se necessária a compreensão da presença militar estadunidense na Pan-Amazônia a partir de uma análise histórica dos processos de militarização da região e dos interesses geopolíticos que os permeiam.

A Pan-Amazônia ocupa cerca de 7 milhões de km² em oito países e um território ultramarino. No Brasil, a Amazônia Legal abrange cerca de 5 milhões de km², aproximadamente 59% do território nacional, segundo o IBGE.

Desse modo, observa-se que a presença militar dos Estados Unidos nesse território não é uma novidade recente. Primeiro vieram a cooperação antidrogas e a assistência de segurança, depois, o acesso a pistas e bases, os exercícios conjuntos e os acordos de tecnologia.

Na Colômbia, o Plano Colômbia, lançado em 2000 com bilhões de dólares de Washington, concentrou-se em apoio policial e militar na faixa amazônica de Putumayo, Caquetá e Guaviare. No Equador, o acordo de 1999 que instalou os americanos em Manta durou até 2009, quando o governo de Rafael Correa se recusou a renová-lo. No mesmo ano, Bogotá fechou com Washington o acesso a sete bases colombianas, acordo que a Corte Constitucional do país derrubou em 2010 por falta de aval do Congresso.

No Brasil, na década de 1990, o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), de cerca de US$ 1,4 bilhão, teve a empresa americana Raytheon como integradora de sistemas, e o contrato foi cercado de polêmica no Congresso. Em 2008, Washington reativou a Quarta Frota, voltada ao Atlântico Sul e ao Caribe, o que gerou desconfiança em Brasília.

Em 2017, o Exército dos EUA participou do Amazonlog, exercício logístico sediado em Tabatinga (AM), na tríplice fronteira com Peru e Colômbia, com críticas imediatas de parlamentares da oposição, que apontaram a presença de tropas de uma potência alheia à bacia amazônica como ruptura de uma tradição de afirmação da soberania.

Para a geógrafa Bertha Becker, da UFRJ, a Amazônia passou a ser tratada como fronteira de recursos para o capital global, o que ajuda a explicar por que o interesse estratégico externo cresce junto com a valorização de seus minérios, sua biodiversidade e sua água.

Em 3 de janeiro de 2026, forças dos EUA atacaram a Venezuela e capturaram Nicolás Maduro, e a Venezuela fechou a fronteira com Roraima, segundo apuração da CNN Brasil. O governo brasileiro classificou a ação como desrespeito.

A crise do Essequibo, em 2023, já havia alertado Celso Amorim, assessor de Lula para assuntos internacionais, para o risco de que a disputa servisse de pretexto à presença militar estrangeira na Amazônia, justamente quando o Comando Sul anunciava exercícios com a Guiana. Washington justifica essas ações com o combate ao narcotráfico, argumento que sustentou também o Plano Colômbia.

Nos anos 1980, o decreto de desapropriação feito pelo governo estadual, em plena ditadura, transferiu centenas de famílias para agrovilas distantes do mar. O antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida documentou esse processo e a perda de acesso ao litoral, aos babaçuais e às áreas de roça e pesca que sustentavam a economia quilombola.

Segundo o Observatório da Alma Preta, cerca de 77% dos pouco mais de 22 mil moradores do município se autodeclaram quilombolas. Um acordo judicial de 2008 previa a titulação do território, mas, de acordo com o próprio MPF, ele ainda não havia sido cumprido em 2019. Quem perde a maré, a roça e a proximidade dos cemitérios perde também a segurança alimentar e o sentido do lugar.

Em outros pontos da região, o preço apareceu na lavoura e na água. Na Colômbia, a fumigação aérea de coca com glifosato, componente central do Plano Colômbia, atingiu também cultivos de subsistência em áreas de fronteira amazônica. Em 2008, o Equador levou o caso à Corte Internacional de Justiça, alegando danos a pessoas, plantações e animais do lado equatoriano.

O processo terminou em 2013 com um acordo e indenização paga por Bogotá. A fumigação aérea foi suspensa na Colômbia em 2015. Em 2026, reportagens relatam que operações de combate a grupos armados com apoio do Comando Sul no Equador atingiram propriedades rurais da província amazônica de Sucumbíos. Uma delas, segundo moradores ouvidos pelo The New York Times, teria destruído uma fazenda leiteira.

A resposta das populações locais é através de política e manifestações. Em Alcântara, o Movimento dos Atingidos pela Base Espacial (Mabe) transformou a resistência em estratégia jurídica e diplomática.

Em 2019, as comunidades elaboraram um protocolo de consulta com base na Convenção 169 da OIT, enviaram a Carta de Alcântara ao Congresso Nacional e levaram o caso a instâncias internacionais. O assessor jurídico Danilo Serejo, quilombola e integrante do Mabe, afirmou na época que os moradores resistiriam porque, para eles, não havia plano B.

Mais ao norte, povos indígenas de Roraima, do Amazonas e do Amapá convivem há décadas com a militarização da fronteira. Em Raposa Serra do Sol, o Supremo Tribunal Federal fixou em 2009 condições segundo as quais a atuação das Forças Armadas e da Polícia Federal independe de consulta às comunidades, e organizações como a Coiab e a Apib negociam esse espaço entre a defesa do território e a presença do Estado.

Os interesses em disputa não coincidem. Para parte do governo brasileiro e dos parlamentares que votaram a favor do acordo de Alcântara, a base pode tornar o centro espacial viável comercialmente, gerar receita para o programa espacial e trazer desenvolvimento. Do outro lado estão as comunidades e organizações de direitos humanos, que questionam a ausência de consulta prévia e o risco de novos deslocamentos.

No Equador, o presidente Daniel Noboa defendeu a abertura a bases estrangeiras, e o secretário de Estado Marco Rubio disse em 2025 que Washington estudaria o pedido. Os equatorianos, porém, rejeitaram em referendo, em novembro de 2025, a instalação de bases estrangeiras, e o debate sobre a cooperação militar com os EUA seguiu aberto.

A soberania em disputa na Pan-Amazônia passa menos pela imagem de tropas ocupando território e mais por acordos, concessões e infraestrutura militar que moldam a presença estrangeira sem alarde. O que o histórico mostra é que quem vive na região, quilombolas, indígenas e ribeirinhos, paga os custos mais diretos e ao mesmo tempo é o ator político que mais tem conseguido atrasar, condicionar ou impedir decisões tomadas longe dali.

Em suma, a presença militar estadunidense na Pan-Amazônia deve ser analisada à luz de um contexto histórico marcado pela disputa de influência na América Latina, pela relevância estratégica da região e pelas mudanças na política externa dos Estados Unidos ao longo do tempo, especialmente no que tange ao hemisfério ocidental.

As preocupações em torno da presença das forças estrangeiras se baseiam nas condições em que essa atuação ocorre e nos interesses que a orientam. A análise desse tema, bem como a discussão sobre a preservação da soberania, pede atenção especial às assimetrias de poder que definem a relação entre os Estados e ao impacto que a militarização dos territórios amazônicos pode provocar sobre as pessoas que neles habitam.

Dessa forma, indica-se a leitura do National Security Strategy (2025), documento oficial que apresenta as prioridades de segurança nacional do governo estadunidense, sua visão para o Hemisfério Ocidental e o chamado “Corolário Trump”. A leitura do documento permite conhecer os interesses e as justificativas do atual governo dos Estados Unidos para sua atuação nos países da região, além de suas implicações para a Pan-Amazônia.

Disponível em: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf

Ainda, recomenda-se a leitura do artigo “Do Congresso do Panamá à Soberania Pan-Amazônica”, de Samuel Gomes dos Santos, publicado pela Revista Tempo do Mundo. O texto aborda a articulação política dos Estados latino-americanos desde o Congresso do Panamá até os atuais desafios à soberania pan-amazônica, com o fortalecimento da Doutrina Monroe e o Corolário Trump.

Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/entities/publication/d5226b40-e765-4ddc-bfe3-7770a73a85a4

Por fim, faz-se a indicação para a leitura do Tratado de Cooperação Amazônica, assinado por Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. O documento oficial estabelece as bases para a cooperação entre esses Estados no desenvolvimento da região e na conservação dos seus recursos, além de facilitar o entendimento sobre os instrumentos de ação conjunta existentes entre os países amazônicos.

Disponível em: https://otca.org/wp-content/uploads/2023/07/3.-PORTUGUES-Tratado-de-Cooperacao-Amazonica-TCA.pdf

Referências bibliográficas

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SANTOS, Samuel Gomes dos. Do Congresso do Panamá à soberania pan-amazônica. Revista Tempo do Mundo. Brasília, n. 40, p. 467‑498, abr. 2026. DOI: http://dx.doi.org/10.38116/rtm40art16

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